Nunca vi
Há tantas coisas no mundo que morremos e não temos conhecimento nem de 1 por cento dessas situações, causos e coisas que acontecem mundo afora. Somos uma civilização pautada pela distribuição geográfica e com culturas, estilos, necessidades e valores diferenciados; respeitar a cultura e o saber do outro em seu contexto, é algo que devemos incentivar desde pequenos. Temos casamentos estranhos, feitos em rituais ciganos, ortodoxos e aqueles mais radicais, os mulçumanos, onde a vontade dos nubentes pouca importa, e sim uma tradição. A tradição indígena brasileira, ainda que, já quase apagada, ainda carrega alguns conceitos da região e dos povos, como o clã, as rezas e danças e as relações entre os membros da tribo, levando assim a uma tentativa, sofrida de manter a genética e a raça que é nossa antecessora em terras tropicais. Dito isso, confesso, ontem fiquei assustada, e por que não dizer assombrada com uma maneira estranha de alguma pessoas fazerem a passagem (funeral) de um a pessoa de um determinada "comunidade", e não são favelados (palavra evitada com o politicamente correto, mas a favela é o termo certo), e não são facínoras (comando vermelho, amarelo, sanguinolento e por aí vai), são pessoas que perderam um integrante de um grupo , e com camisetas com dizeres de "saudades eternas" ou "descanse em paz" estavam com música alta e bebidas variadas comemorando a passagem do mesmo. Até entendo que tem pessoas que dizem: Não chorem no meu funeral, comemorem, mas daí o que vi me assustou por completo.
O cenário:
Tarde ameaçando um temporal daqueles de verão, com nuvens negras e pesadas no céu. O local onde são velados os mortos fica num lugar alto e precisamos subir umas ruas ou escadaria. Chegando ao local para fazer a limpeza da pedra da caixa funerária de um ente familiar, que estava toda suja de cimento devido a obras no local, a chuva despencou. Olhei para o velório e vi que estava cheio com música e pessoas tirando selfie e bebendo, e como não tinha onde me recolher da tempestade corri para o local e fiquei no canto esperando a chuva passar. E, pasme, fui surpreendida com caixas de cervejas, vinho, uísque, pessoas com camisetas com a foto do falecido e os dizeres citados acima; entre as pessoas tinham crianças (entre 6 a 8 anos) e bebês em carrinho empurrados pelos supostos pais. O que mais me espantou foi que diante do evento e da forma como expressavam a emoção; bebiam, esvaziavam as garrafas de cervejas de uma marca para se assemelha ao vírus da pandemia e jogavam as garrafas na rua, que assim que caiam quebravam e ficavam só os cacos. Adultos bêbados ficaram na chuva, sem camisa, se lamentando a morte e a chuva pesada não dava trégua. Depois de um tempo vi uma pessoa oferecendo um pó branco num saquinho para o integrante que estava na chuva, e depois outros cheirando o tal pó! Como a chuva não cessava não conseguia sair dali e me incomodava a música, as risadas, a fumaça com cheiro de erva; bebidas jogadas na rua. Os servidores do velório saiam na chuva e pegavam os cacos para evitar que transeuntes depois da chuva se machucassem. Os pais com bebês, vi dois, adentravam com carrinho para o salão, e depois voltavam com bebidas e cigarros com cheiro de erva e fumavam sem preocupação. Enfim, a chuva demorou e fiquei ali uns 45 minutos, depois amenizou e fui fazer o que tinha como objetivo e após, caminho de casa. Durante o percurso fiquei pensando em como as pessoas encontraram meios de extravasar emoções de diferentes formas, até feriando normas e regras.
Sei que a liberdade de expressão a cultos, ritos e religiões é aberta e democrática, assim como é nossa liberdade de expressão (pelo menos na Lei Magna está escrito), mas tem coisas que são muito espantosas. Já vi de tudo nesse quesito pelos filmes e documentários: ritual dos mortos como na cidade do México, e outros lugares longínquos onde temos dança e pintura corporal para demonstrar que há reverência dos grupos diante das fatalidades, compreendo e entendo, mas confesso dessa forma, nos meus mais de cinquenta anos de vida, eu nunca vi.
Deus é bom, sempre! 🙏
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