sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Vamos de Poesia (Série Poética)

 Natal… Natais…

Tu, grande Ser,
Voltas pequeno ao mundo.
Não deixas nunca de nascer!
Com braços, pernas, mãos, olhos, semblante,
Voz de menino.
Humano o corpo e o coração divino.

Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?

Em cada estrela sempre pomos a esperança
De que ela seja a mensageira,
E a sua chama azul encha de luz a terra inteira.
Em cada vela acesa, em cada casa, pressentimos
Como um anúncio de alvorada;
E ein cada árvore da estrada
Um ramo de oliveira;
E em cada gruta o abrigo da criança omnipotente;

E no fragor do vento falas de anjos, e no vácuo
De silêncio da noite
Estriada de súbitos clarões,
A presença de Alguém cuja forma é precária
E a sua essência, eterna.
Natal… Natais…
Tantos vieram e se foram!
Quantos ainda verei mais?




– Cabral do Nascimento, em ‘Cancioneiro’.



João Cabral do Nascimento nasceu (Rua do Carmo, Funchal22 de março de 1897 - Campo GrandeLisboa2 de março de 1978) foi escritorprofessor e colaborador de revistas como Cadernos de PoesiaLitoralTávola RedondaTempo Presente, entre outras. Segundo David Mourão-Ferreira"ninguém representava, como Cabral do Nascimento, o lirismo na sua forma mais pura, decantada, mais liberta de todos os compromissos e de todos os hibrismos" [1].

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